terça-feira, 2 de agosto de 2011

PEDRO

Pobre Pedro Preto 
À festa chegava 
Co'a gata flertava 
Às outras piscava 
Nobre’m ser do gueto 


Saindo da festa 
U'a festa d'arromba 
Ferido na testa 
Pedaços de bomba 
Ao jovem contente 
Que ora sorria 
Só vê a semente 
Perigo corria 


Pobre Pedro Preto 
No baile dançava 
Co'a gata flertava 
Às outras piscava 
Nobre’m ser do gueto 


Ao fim da balada 
Os homi ‘nvadiram 
Na noite calada 
Dois tiros partiram 
Perdidas acharam 
Dois vultos no beco 
No beco arriaram 
Mais um tiro seco 


Pobre Pedro Preto 
No baile dançava 
A gata pegava 
Às outras piscava 
Nobre’m ser do gueto 


Desceu as escadas 
Bateu nas janelas 
Estavam trancadas 
Sopravam luz velas 
Viela escura 
Uma sombra surge 
Tigela de cura 
A vida que urge 


Pobre Pedro preto 
No baile beijava 
A gata pegava 
As outras cantava 
Nobre’m ser do gueto 


A noite 'strelada 
Brilh' à luz dos sóis 
Foi da metralhada 
'Stendendo lençóis 
Na 'scada um corpo 
Na viela também 
Há mortos no porto 
E na 'stação de trem 


Pobre Pedro preto 
No baile beijava 
A gata tocava 
As outras cantava 
Nobre’m ser do gueto 


Na testa ferido 
Perdido e sem rumo 
Havia subido 
P'ra boca de fumo 
Em meio a guerra 
O corpo acorda 
Deitado na terra 
Atado na corda 


Pobre Pedro preto 
As calças tirava 
A gata pegava 
As outras chamava 
Nobre’m ser do gueto 


Em um súbito 'lhar 
Viu uma saída 
Sem nem menos pensar 
Fugiu par’a vida 
No meio da reta 
Uns tiros lhe deram 
Nenhum lhe afeta 
"Mir'olho" não eram 


Pobre Pedro preto 
Sua pele suava 
Co'a gata transava 
As outras chamava 
Nobre’m ser do gueto 


Desceu p'lo barraco 
Sem olhar, é audaz 
Com um membro manco 
Vai molhar-se em paz 
Na água da caixa 
Limpa as feridas 
No varal, s’enfaixa 
Co’a roupa 'stendida 


Pobre Pedro preto 
Sua pele suava 
Co'a gata transava 
A outras passava 
Nobre’m ser do gueto 


Os tiros cessaram 
Com o Sol nascendo 
As aves voaram 
P'r'os corpos morrendo 
PMs se foram 
Sem eles - presuntos 
Uns sofrem e choram 
Pelos seus defuntos 


Pobre Pedro preto 
A transa acabava 
Co'a gata cansava 
Das outras parava 
Nobre’m ser do gueto 


O Pedro festeiro 
Foi par'o CTI 
Por ser brasileiro 
Morre na UTI...? 
O jornal da TV 
Chegou na favela 
Onde passa só vê 
O sangue e a vela 


Pobre Pedro preto 
A noite acabava 
Da gata lembrava 
Às outras falava 
Nobre’m ser do gueto 


Demorou pra sair. 
Pedro sobreviveu 
Só voltou a subir 
Porqu'é lá que nasceu 
Chegou no barraco 
Um lugar sem ninguém 
Sentindo-se fraco 
Sem qualquer um vintém 


Pobre Pedro preto 
Do baile ralava 
Da gata lembrava 
Às outras falava 
Nobre’m ser do gueto 


Chegou um vizinho 
Dando-lhe almoço 
Entornou o vinho 
Cuspind'um caroço 
Tirou um cochilo 
Acordou co’as palmas 
Ouviu um sibilo 
O "Chefe das Almas" 


Pobre Pedro preto 
Do baile ralava 
Da gata lembrava 
Das outras cansava 
Nobre’m ser do gueto 


O cara à frente 
Falou quem 'le era 
O chefe demente 
O Homem de Vera 
E Vera era ela 
Aquela garota 
Tão boa - tão bela 
Que beija galiota 


Pobre Pedro preto 
Do baile ralava 
Da gata lembrava 
Às outras falava 
Nobre’m ser do gueto 


O corno da hora 
É chefe do morro 
"Que faço agora?" 
"Se fico - eu morro!" 
- Eu matei Vera. 
- Eu não quero morrer! 
- Puta ela era. 
- Eu preciso correr... 


Pobre Pedro preto 
Do baile ralava 
Da gata lembrava 
Às outras falava 
Nobre’m ser do gueto 


Um tiro ecoou 
Tiros de maldição 
Logo Pedro voou 
Quase nu p'lo morrão 
Um outro disparo 
Pedr'é acertado 
Pagou muito caro 
Está consumado 


Pobre Pedro preto 
Do baile lembrava 
Por Vera rezava 
P'las outras surtava 
Nobre’m ser do gueto 


                       




Niterói, 13 de janeiro de 2010

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