Pobre Pedro Preto À festa chegava
Co'a gata flertava
Às outras piscava
Nobre’m ser do gueto
Saindo da festa
U'a festa d'arromba
Ferido na testa
Pedaços de bomba
Ao jovem contente
Que ora sorria
Só vê a semente
Perigo corria
Pobre Pedro Preto
No baile dançava
Co'a gata flertava
Às outras piscava
Nobre’m ser do gueto
Ao fim da balada
Os homi ‘nvadiram
Na noite calada
Dois tiros partiram
Perdidas acharam
Dois vultos no beco
No beco arriaram
Mais um tiro seco
Pobre Pedro Preto
No baile dançava
A gata pegava
Às outras piscava
Nobre’m ser do gueto
Desceu as escadas
Bateu nas janelas
Estavam trancadas
Sopravam luz velas
Viela escura
Uma sombra surge
Tigela de cura
A vida que urge
Pobre Pedro preto
No baile beijava
A gata pegava
As outras cantava
Nobre’m ser do gueto
A noite 'strelada
Brilh' à luz dos sóis
Foi da metralhada
'Stendendo lençóis
Na 'scada um corpo
Na viela também
Há mortos no porto
E na 'stação de trem
Pobre Pedro preto
No baile beijava
A gata tocava
As outras cantava
Nobre’m ser do gueto
Na testa ferido
Perdido e sem rumo
Havia subido
P'ra boca de fumo
Em meio a guerra
O corpo acorda
Deitado na terra
Atado na corda
Pobre Pedro preto
As calças tirava
A gata pegava
As outras chamava
Nobre’m ser do gueto
Em um súbito 'lhar
Viu uma saída
Sem nem menos pensar
Fugiu par’a vida
No meio da reta
Uns tiros lhe deram
Nenhum lhe afeta
"Mir'olho" não eram
Pobre Pedro preto
Sua pele suava
Co'a gata transava
As outras chamava
Nobre’m ser do gueto
Desceu p'lo barraco
Sem olhar, é audaz
Com um membro manco
Vai molhar-se em paz
Na água da caixa
Limpa as feridas
No varal, s’enfaixa
Co’a roupa 'stendida
Pobre Pedro preto
Sua pele suava
Co'a gata transava
A outras passava
Nobre’m ser do gueto
Os tiros cessaram
Com o Sol nascendo
As aves voaram
P'r'os corpos morrendo
PMs se foram
Sem eles - presuntos
Uns sofrem e choram
Pelos seus defuntos
Pobre Pedro preto
A transa acabava
Co'a gata cansava
Das outras parava
Nobre’m ser do gueto
O Pedro festeiro
Foi par'o CTI
Por ser brasileiro
Morre na UTI...?
O jornal da TV
Chegou na favela
Onde passa só vê
O sangue e a vela
Pobre Pedro preto
A noite acabava
Da gata lembrava
Às outras falava
Nobre’m ser do gueto
Demorou pra sair.
Pedro sobreviveu
Só voltou a subir
Porqu'é lá que nasceu
Chegou no barraco
Um lugar sem ninguém
Sentindo-se fraco
Sem qualquer um vintém
Pobre Pedro preto
Do baile ralava
Da gata lembrava
Às outras falava
Nobre’m ser do gueto
Chegou um vizinho
Dando-lhe almoço
Entornou o vinho
Cuspind'um caroço
Tirou um cochilo
Acordou co’as palmas
Ouviu um sibilo
O "Chefe das Almas"
Pobre Pedro preto
Do baile ralava
Da gata lembrava
Das outras cansava
Nobre’m ser do gueto
O cara à frente
Falou quem 'le era
O chefe demente
O Homem de Vera
E Vera era ela
Aquela garota
Tão boa - tão bela
Que beija galiota
Pobre Pedro preto
Do baile ralava
Da gata lembrava
Às outras falava
Nobre’m ser do gueto
O corno da hora
É chefe do morro
"Que faço agora?"
"Se fico - eu morro!"
- Eu matei Vera.
- Eu não quero morrer!
- Puta ela era.
- Eu preciso correr...
Pobre Pedro preto
Do baile ralava
Da gata lembrava
Às outras falava
Nobre’m ser do gueto
Um tiro ecoou
Tiros de maldição
Logo Pedro voou
Quase nu p'lo morrão
Um outro disparo
Pedr'é acertado
Pagou muito caro
Está consumado
Pobre Pedro preto
Do baile lembrava
Por Vera rezava
P'las outras surtava
Nobre’m ser do gueto
Niterói, 13 de janeiro de 2010
A melhor de todas! *-*
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